sábado, 17 de outubro de 2009

Tercetos (Olavo Bilac)




Noite ainda, quando ela me pedia

Entre dois beijos que me fosse embora,

Eu, com os olhos em lágrimas, dizia:


“Espera ao menos que desponte a aurora!

Tua alcova é cheirosa como um ninho…E olha que escuridão há lá por fora!
Como queres que eu vá, triste e sozinho,

Casando a treva e o frio de meu peito

Ao frio e à treva que há pelo o caminho?!


Ouves? é o vento! É um temporal desfeito!

Não me arrojes à chuva e à tempestade!

Não me exiles do vale do teu leito!
Morrerei de aflição e de saudade…


Espera! Até que o dia resplandeça,

Aquece-me com a tua mocidade!
Sobre o teu colo deixa-me a cabeça

Repousar, como há pouco repousava…


Espera um pouco! Deixa que amanheça!”
E ela abria-me os braços. E eu ficava.


E, já manhã, quando ela me pedia

Que de seu claro corpo me afastasse,

Eu, com os olhos em lágrimas , dizia:


“Não pode ser! Não vês que o dia nasce?A aurora, em fogo e sangue, as nuvens corta…Que diria de ti quem me encontrasse?
Ah... nem me digas que isso pouco importa!…Que pensariam, vendo-me, apressado,

Tão cedo assim, saindo a tua porta,
Vendo-me exausto, pálido, cansado. E todo pelo aroma de teu beijo

Escandalosamente perfumado?
O amor, querida, não exclui o pejo…Espera! Até que o sol desapareça.

Beija-me a boca! Mata-me o desejo!
Sobre o teu colo deixa-me a cabeça repousar, como há pouco repousava!

Espera um pouco! Deixa que anoiteça!”



E ela abria-me os braços. E eu ficava.

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